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Outro milagre da ermida dos campos

by Portalagora

Flávio Flora

Dezenas de pessoas presenciaram o lançamento da pedra fundamental da grande Cruz do Espírito Santo (Cruz de Todos os Povos), no último sábado 24, sem saber que estava concretizando-se mais um dos “milagres” que caracterizaram a região de Ermida, nos séculos 18 e 19, e tinham referências nesse mesmo local.

Além das “coincidências” identificadas pelo engenheiro José Geraldo da Silva Lucas, especialista em estruturas metálicas, autor da iniciativa e responsável pela obra, alguns fatos históricos vêm somar-se aos motivos que levaram à escolha do lugar. Para o engenheiro, o morro da Gurita foi escolhido por ser um lugar alto, que lembra o lugar em que Jesus foi sacrificado e deve se transformar em local para fortalecer a fé cristã.

Além disso, alguns aspectos foram considerados pelos idealizadores do projeto, tais como o nome da cidade, que significa “Cidade do Divino”, e a geografia da área urbana, semelhante a uma pomba em voo – símbolo do padroeiro de Divinópolis.

 A ermida abandonada
No passado, nesse lugar foi erguida uma guarita (“gurita”, como diziam os portugueses), possivelmente em 1735, para marcar os limites territoriais de Pitangui diante da entrada da bandeira da primeira Picada de Goiás, de São João del-Rei a Paracatu. A partir de 1744, na revisão dos limites do termo de Pitangui e São José del-Rei, a guarita já era mencionada como ermida e assim esteve até o início do século 19, apesar de todas as dificuldades de acesso.

Nessa ermida, cultuava-se o eremita São Francisco de Paula e Santa Helena, o que pode ter mudado em 1767, quando a imagem do santo foi retirada de lá e trazida para a capela recém-construída na “passagem da Itapecerica”, dedicada ao Espírito Santo e São Francisco de Paula. A partir dos anos 1770, a antiga ermida-gurita ficou abandonada até que o fazendeiro major João Ferreira da Silva pelos idos de 1830 a descobriu.

Os milagres da gurita
O major era conhecido por sua crueldade com os escravos, por sua brutalidade com os familiares; mas, certo dia, andando por suas terras, subiu o morro e deu com a ermida no alto, abandonada, e lá dentro uma pequena imagem de Santa Helena. Consta que, ao descer do monte, o major passou a refletir sobre sua crueldade e intolerância e, quando chegou em casa, naquela noite, já se decidira mudar de vida.

Tem-se notícia de que tenha deixado a região e passado dois ou três anos no Convento do Caraça e que, ao voltar para casa, era outra pessoa: amoroso, compreensivo, passou a tratar os escravos com amabilidade; ficou mais sociável. Meses depois, com apoio do padre Guaritá e com ajuda espontânea de todos os escravos e fazendeiros da região, desmontou a ermida da gurita e a reconstruiu no local que, depois, passou a se chamar Lavapés. Isso porque, desde então, o major fazia questão de repetir o ato de Jesus de lavar os pés dos seus apóstolos (Semana Santa), no caso, dos seus escravos.

Contam descendentes de fazendeiros antigos da região que seus avós afirmavam que em algumas épocas de secas ou de chuvas prolongadas faziam procissão e voltavam para casa sob chuvas ou com estio, conforme era o desejo coletivo.

A redescoberta da ermida
Em 1989, em busca de vestígios indígenas, redescobrimos (por referência de um mapa antigo) o local e trouxemos de lá um dos braços do primitivo cruzeiro, suspenso na galharia que se formara no lugar. Estava comigo a jornalista Sandra Guimarães, que ajudou no transporte da peça para o Museu Histórico de Divinópolis. Um outro pedaço menor encontrado nas imediações está preservado para teste de longevidade.

Naquela visita, documentou-se por fotografia que uma base de pedras resistia ao tempo, assim como partes dos degraus de entrada, o que permitia vislumbrar que ela estava voltada para o nascente.

Na segunda metade dos anos 1990, juntamente com publicitário Paulo Bocca, apresentador da TV Candidés, voltamos ao local (ainda intocado) para uma reportagem e registro dos “milagres da ermida dos Campos”.

Ao final da década, levamos ao local um grupo de alunos e pais da Escola Crescer, de Divinópolis, para conhecer o marco civilizatório mais antigo da região e dar publicidade ao descoberto, na iminência de descaracterização do local por falta de informação histórica.

O portal de Lavapés
Dessa ermida dos campos sobrevive o portal apenas, instalado na igreja do Lavapés, ao início do sec. XIX, quando a capela do alto foi desmontada e reconstruída. E lá está desde então.

Este templo foi dedicado a Santa Helena, São Sebastião e Santo Antônio. O arquiteto Aristides Salgado dos Santos, quando prefeito, pela segunda vez, pensou em tombar o templo, mas não o fez, talvez por falta de dados históricos, obtidos mais tarde, em pesquisa feitas por este historiador no Arquivo Eclesiástico de Mariana (Livros de provisões e licenças).

Então, quando se perguntar porque foi escolhido esse local para o cruzeiro de 73,8 metros, temos aí também uma justificação histórica e mais um “milagre” da Ermida, que se enuncia.

 

Flávio Flora é também historiador.

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