Na escola primária, várias décadas atrás, ensinaram-me que o ser humano era feito de corpo e alma*. O corpo constituído da carne, dos ossos e de outras matérias físicas, que podemos enxergar e tocar. A alma era imaterial e através dela podíamos trilhar o caminho para chegar a Deus. O corpo possuía a força física e a alma era dona da inteligência, por isso controlava o corpo. Junto com isto também me ensinaram que tamanho não é documento, pois a alma (inteligência) é quem determina o valor de uma pessoa. Esta foi a parte que eu mais gostei.
Muitas pessoas continuam afirmando as mesmas coisas e justificam que isto está registrado na Bíblia, através dos evangelistas. Porém esta história é mais antiga e está relacionada com o surgimento da filosofia, notadamente com Platão (século V a.C.). Foi ele quem primeiro descreveu com argumentos racionais o dualismo corpo e alma. O filósofo dava pouco valor ao corpo e argumentava ser ele o abrigo de nossos vícios, por ser muito suscetível às tentações, desejos e apetites. Segundo ele, a alma é superior ao corpo e responsável pela retidão de conduta. Platão usou uma metáfora para esclarecer o seu pensamento: a alma é o piloto do corpo. Ainda segundo ele, com a morte do corpo, a alma estaria livre para buscar uma nova morada, entre os humanos ou em outro ser vivo – um tipo de reencarnação chamado de metempsicose.
É natural que muitas pessoas associem as ideias de Platão com a Bíblia, afinal muitos dos seus conceitos foram absorvidos por religiões que adotam o Antigo e/ou o Novo Testamentos como referência espiritual. Lembremos que Paulo de Tarso, provavelmente no ano 60 d.C, em sua Carta aos Romanos (Cap. 9, versículo 8), escreve que “(…) não são os filhos da carne que são filhos de Deus.” Santo Agostinho (354 – 430 d.C.), reconhecido como o maior teólogo da primeira fase da era cristã (patrística), escreveu em seu livro “Confissões”: (…) “A vida do corpo é a alma, a vida da alma é Deus.”
Mas, como sabemos, a filosofia é palco de muita polêmica. O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632 – 1677) defendia ideias muito diferentes, sendo excomungado pela religião judaica e suas obras desaconselhadas pela religião católica. Para ele, corpo e alma constituem uma unidade, onde a alma é a capacidade de pensar de um corpo que tem a capacidade de agir. Existe um sinergismo onde corpo e alma tem necessidades e condições de igualdade, com o propósito de alcançar a liberdade, a felicidade e a virtude.
Os filósofos ateus alegam que o desprezo do corpo entre as religiões é uma forma de coibição, onde se desautorizam os prazeres do cotidiano em troca da pureza da alma, que leva as pessoas ao reino dos céus. Porém não foi por negar a existência de Deus que Spinoza foi discriminado pela doutrina. Ele acreditava em deus, porém não o via como um ser transcendente, que criou o mundo e depois foi morar no céu. O deus de Spinoza é inseparável da natureza, está presente em todas as coisas, regendo-as através das leis naturais. Ele foi excomungado porque criticou o uso da fé com interesses políticos. Para ele, a igreja de seu tempo manipulava seus fiéis com o objetivo de obter poder e controle social.
E você, o que acha disso? O que te contaram na escola? Será que somos dualistas como argumentava Platão ou monistas como defendia Spinoza. Será que Deus é transcendente ou a morada do Divino é a natureza? Procede a crítica de Spinoza ou isso é coisa do passado? Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.
* Com a evolução da ciência, principalmente no campo da neurologia, hoje dispomos de informações que definem funções típicas do sistema cerebral que antes eram atribuídas à alma.
Alberto Gigante Quadros
Médico / Pós graduado em Bioética pela Unesco
Graduando em Filosofia pela UFSJ
