Pesquisas revelam que a cada ano aumenta o número de pessoas que moram sozinhas. Os setores de alimentação e serviço fazem adaptações para atender a esse mercado crescente. A vida moderna exige praticidade, quase ninguém tem tempo. Quem consegue seu próprio espaço regozija-se pela oportunidade de fazer a decoração dos seus sonhos e usufruir-se da mais completa privacidade. Há uma deliciosa sensação de liberdade, de domínio total da situação.
Porém, os sonhos não são iguais para todos. Uns vivem sozinhos por opção; outros, no entanto, são vítimas de uma situação mal resolvida, que não lhes deixa alternativa. Há os que se saem muito bem; há outros que sofrem. Em ambos os casos, existem momentos agradáveis, de muita interação consigo e com o ambiente. A ideia de ter um espaço só da gente consola, mas as coisas mudam de figura quando a solidão bate à porta.
É uma dor que não dói, mas sufoca. Parece ser uma saudade de alguma coisa que não se sabe o quê. É um desejo de partir em busca de algo e não se sabe aonde. Ninguém é feliz completamente. A felicidade é uma busca constante, com muitas pedras no caminho. Talvez, por isso, a gente tenha momentos felizes, não a felicidade perene.
Nos momentos de solidão as reminiscências são inevitáveis. Hoje, por exemplo, estou sentindo saudade do tempo em que saía de casa de manhã e podia dizer: bênção, mãe, estou indo. Ao que ela respondia: “Deus o abençoe, meu filho, Nossa Senhora o acompanhe”. Retornando, à tarde, enxergava de longe a fumaça saindo da chaminé e, vindo ao meu encontro, o cheiro de alguma coisa gostosa, cozida no fogão à lenha, em panela de ferro.
Entrava em casa sempre pela porta da cozinha implorando mais uma vez a sua bênção e a recebia com o carinho cotidiano. O dia 16 de julho era uma data marcante, época em que todos os parentes retornavam de onde quer que estivessem, com dinheiro, presentes e a enorme alegria do reencontro. Íamos em mutirão para a cidade, para a festa de Nossa Senhora do Carmo. Mas, como nesta vida nada é eterno, acabaram-se as reuniões de família, porque mamãe não existe mais.
Neste ano, foi-se o dia da celebração. Não ouvi, sequer em sonho, o toque da banda com os mesmos dobrados de tantas outras festas. Não tenho mais o ânimo de outrora; distante, não pude enfeitar a minha janela para a procissão. Mais um 16 de julho se tornou lembrança, não viajei à terra natal, não revi parentes nem amigos. Um nó, porém, aperta a minha garganta, porque não pude entoar com os demais fiéis, à passagem do andor, o hino que tanto mamãe gostava.
“Ó Senhora do Carmo
Sois a mais pura e bela flor
Protegei os que aqui estão”!
