A Cultura em se ouvir música

 Não existe um ser humano na face da Terra que não goste de pelo menos uma música, que nunca tenha se emocionado ao ouvir uma música ou mesmo que tenha sido afetado por uma lembrança ao ouvir.

A Música está presente em nossas vidas o tempo todo. A cultura de ouvir música é um reflexo fascinante da evolução humana, sempre ligada a costumes, tecnologia e o papel social do som. Desde rituais coletivos na pré-história até a experiência individualizada do streaming, o modo como interagimos com a música mudou drasticamente.

Você sabe desde quando isso começou?

Na Pré-História a 476 d.C, ouvir música é uma experiência coletiva, intimamente ligada a rituais, comunidade e transcendência. A música existe apenas no momento da performance.

O som (voz, palmas, instrumentos rudimentares de ossos, pedras e madeira) era usado para comunicação, rituais religiosos e expressão emocional. A música era parte integrante das atividades grupais (dança, guerra, caça).

A música ganha sofisticação no Egito e Mesopotâmia. Instrumentos como a harpa, lira e cítara são desenvolvidos. Ouvir música está frequentemente associado a cerimônias religiosas e ao poder da corte real, com grandes orquestras se formando na Assíria.

Na Grécia Antiga a música é vista como uma forma de elevar o ser humano moralmente e transcendentalmente (ligação com a filosofia, a matemática e a astronomia). Os filósofos, como Platão e Aristóteles, discutiam o poder da música de alterar o estado anímico (tristeza, alegria, catarse).

Já na Roma Antiga a música se torna mais popular e cotidiana, sendo utilizada em celebração e exaltação militar, com uma abordagem mais ampla e, por vezes, “libertina” em comparação à visão filosófica grega.

Chegando na Idade Média e no Renascimento (Século V ao XVI), o foco da escuta se concentra na instituição religiosa e, posteriormente, em um crescente interesse humanista pela performance e composição.

Na Idade Média (Sécs. V-XIV): A Igreja Católica dita o modo de ouvir, principalmente através do Canto Gregoriano (música monofônica). A escuta é concentrada em ambientes religiosos e com forte cunho ético/moral. O desenvolvimento da notação musical (partitura) revoluciona o ato de ouvir ao permitir a preservação e a repetição exata das obras.

 Enquanto no Renascimento (Sécs. XV-XVI) com o Humanismo, o foco se afasta ligeiramente do divino e se volta para o ser humano. A música coral e o madrigal (música vocal secular) se popularizam. A invenção da prensa de Gutenberg (embora não diretamente musical) facilita a divulgação de partituras e do conhecimento musical, expandindo a cultura do ouvir para um público mais sofisticado e privado, além dos círculos eclesiásticos e da corte.

Com a chegada da Idade Moderna e a Virada Tecnológica (Século XVII ao Início do XX)

A música começa a se tornar uma arte pública e massiva através do concerto e, depois, da gravação.

Durante o período Barroco e Classicismo (Sécs. XVII-XVIII) temos o surgimento da Ópera, dos Concertos e das Sinfonias estabelecendo a cultura do Ouvir em Concerto. O ato de ouvir se torna uma experiência social formal e pública em grandes salas, onde o público se reúne para escutar composições complexas (Bach, Mozart, Beethoven).

 O período do Romantismo (Século XIX) apresenta a música expressando emoções intensas e surge o individualismo. O público passa a idolatrar o virtuosismo dos compositores e instrumentistas (Chopin, Liszt). A escuta continua a ser majoritariamente coletiva e ao vivo.

Chegamos a Era da Gravação (Final do Século XIX), o Fonógrafo (c. 1877) e, mais tarde, o Gramofone (c. 1888) introduzem a maior revolução na cultura do ouvir: a separação entre o músico e o ouvinte. Pela primeira vez, a música pode ser reproduzida em qualquer lugar, a qualquer momento, e de forma repetida. O ato de ouvir se torna potencialmente privado, mas ainda frequentemente compartilhado em ambientes domésticos.

A era do Rádio (Anos 1920 em diante) democratiza a música, difundindo-a para milhões de lares simultaneamente e impulsionando a indústria musical. O ouvir se torna um ato doméstico coletivo (em torno do aparelho de rádio) e um catalisador de popularização de novos artistas e gêneros.

 Nas décadas de 1970 – 1980 surgem os aparelhos portáteis como o Walkman (década de 1970), o que transforma a escuta coletiva em uma experiência individual e íntima, feita com fones de ouvido. Pela primeira vez, a música acompanha o indivíduo em seu deslocamento pela rua, desassociada do espaço social do lar ou do concerto, o que abre portas para a Era Digital e Streaming (Final do Século XX e Século XXI), o CD (Compact Disc) traz a era digital com alta qualidade e facilidade de manuseio, o MP3 e os smartphones dissolvem o suporte físico, as plataformas de streaming (Spotify, Apple Music, etc.) tornam a música uma vastíssima biblioteca sob demanda. O costume de ouvir se torna hiper personalizado, baseado em algoritmos e listas de reprodução. O desafio atual é equilibrar a conveniência tecnológica com o valor cultural e social da música.

A história da música é, em grande parte, a história de como aprendemos a ouvir e a compartilhar o som em constante diálogo com as inovações tecnológicas e as necessidades da comunidade.

E você, qual música toca seu coração, ou remete a uma memória boa? Me conte!

Tem pauta cultural, me conte no e-mail:

Welber Tonhá e Silva – [email protected]

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha

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