E se o que faltasse fosse coragem, e não esforço?

Outro dia, numa roda de conversa sobre saúde mental no trabalho, uma mulher me disse com os olhos marejados: “Marina, eu me esforço tanto… tanto… e mesmo assim parece que nunca é o bastante”. 

Ficamos em silêncio por alguns segundos (aquele tipo de silêncio que não é vazio, é cheio de coisa sentida). E então perguntei: “E se o que te falta não for esforço, mas coragem”? Ela me olhou surpresa. Coragem pra quê?, quis saber. Coragem pra desacelerar, para se permitir não dar conta de tudo. Coragem pra dizer “não”, pra se escolher sem culpa, pra deixar que algo dê certo sem se sabotar.

Desde então, fiquei com essa pergunta martelando: quantas vezes confundimos esforço com valor pessoal? Quantas vezes achamos que precisamos fazer mais, quando o que falta é apenas o gesto interno de se permitir?

É sobre isso que quero te falar hoje: sobre o medo de dar certo, e sobre a delicada arte de trocar o peso do esforço pela leveza da coragem. Vamos?

A começar em nós: quantas vezes você já desejou profundamente que “algo desse certo”, como aquele projeto, aquela promoção, aquela mudança de vida e, ao mesmo tempo, sentiu um frio repentino no estômago quando percebeu que estava perto? A sensação de que “e se der certo?” pode ser tão paralisante quanto “e se der errado?”.

No cuidado com a saúde, seja como profissional, como gestor ou como pessoa, conhecemos bem o movimento do medo. O medo de errar, de falhar, de não dar conta, de ser insuficiente, de não estar pronta. Mas pouco se fala do medo de dar certo e do impacto que isso tem em nossa mente, nosso corpo e nosso espírito.

Sabe por que o ‘dar certo’ pode paralisar?

No livro, O medo de dar certo, Natália Sousa aponta que frequentemente o bloqueio não está no fracasso, mas no sucesso: “Nem sempre é o medo do fracasso que nos afasta de nossos sonhos. Às vezes, é justamente o contrário: é o receio de as coisas darem certo.” 

No campo da saúde mental, podemos observar isso como uma forma de autorregulação invisível: se eu alcanço algo (um novo cargo, um reconhecimento, conseguir fazer uma caminhada no dia) assumo que algo depois vai mudar, que exijo mais de mim, que o peso da expectativa vai aumentar. Em vez de celebrar, sustento o “não-merecimento”, a culpa, o “e se agora eu não conseguir manter?”.

E, o que isso faz com o corpo e com a mente? Pode gerar ansiedade antecipatória, aquela sensação de “ok, e agora?”, insônia porque a mudança real exige um novo posicionamento, uma nova rotina, uma nova força interior. Pode vir também a sensação de solidão: “quando eu vencer, quem vai me ver? quem vai estar comigo? e se eu me sentir sozinha no topo?” Mudar, também, é deixar algumas coisas para trás. Será que estamos dispostos?

A mente se prepara para “o que vai dar certo”, mas também para “o que vou perder se conseguir”.

Nossa mente é ambivalente: ela deseja o novo, mas teme o que esse novo pode desorganizar. Quando algo “dá certo”, não é apenas o sucesso que chega; é também a ameaça silenciosa de perder o que é conhecido. A mente, em sua tentativa de nos proteger, começa a calcular riscos: “se eu conseguir, será que vou continuar sendo amada?”, “será que ainda terei tempo para mim”?, “e se esperarem demais de mim agora?”. Por isso, muitas vezes o corpo reage com tensão, a mente se sabota, e o inconsciente cria barreiras sutis como atrasos, distrações, autocríticas, tudo para preservar o equilíbrio antigo. É como se o sucesso exigisse uma nova identidade, uma versão nossa que ainda não conhecemos. E diante do desconhecido, o medo fala mais alto. Assim, o “dar certo” não é apenas sobre alcançar algo, mas sobre sustentar o que se conquista sem perder de vista quem somos no processo.

A coragem, então, não é ausência de medo, é um gesto de intimidade com ele. É sentar-se à mesa com aquilo que mais assusta, dar nome, reconhecer de onde vem e, pouco a pouco, descobrir o que ele tenta proteger. Às vezes, o medo não é o vilão: é o corpo tentando avisar que você está prestes a crescer. No livro “O medo de dar certo”, há reflexões que ajudam a perceber quando o sabotador interno assume o volante e começa a dirigir a vida por você.

E aqui te convido a uma pausa: quais são os medos que você tem evitado olhar de frente? Há algo que você vem adiando (um projeto, uma conversa, uma mudança) não por falta de capacidade, mas por receio do que pode acontecer se der certo? Feche os olhos por um instante e perceba: onde esse medo habita no seu corpo? No peito, no estômago, na garganta? Reconhecê-lo já é um ato de coragem.

Porque coragem não é vencer o medo, é caminhar com ele, sem deixá-lo decidir o rumo. Algumas perguntas práticas para você aplicar esta semana:

O que exatamente eu mais desejo que dê certo? E o que eu temo que aconteça se esse desejo se realizar?

Qual parte de mim acredita que não merece esse “dar certo”? O que me faz pensar isso?

E se der certo, quem serei? Quem me verá diferente? Quem vai esperar outra postura de mim?

Visualize: como será o meu corpo, minha rotina, minhas relações quando isso acontecer? E como estará a minha mente?

Eu acredito verdadeiramente que o processo é mais importante do que o resultado. O processo é o que nos molda, nos afina, nos humaniza. O resultado é apenas o retrato de um instante. A travessia é onde a alma se move. É nela que aprendemos a lidar com o incerto, a sustentar o desconforto, a abrir espaço para o novo. Quando dizemos “na travessia vamos nos tornando”, falamos desse tempo entre o sonho e a conquista, entre o medo e a coragem, onde o essencial acontece: o amadurecimento.

Porque dar certo não é apenas chegar, é se reconhecer diferente ao chegar. É perceber que o caminho nos transformou mais do que o destino prometia. E talvez seja isso o que mais assusta e, ao mesmo tempo, o que mais liberta: descobrir que, ao longo do processo, quem se transforma somos nós.

Dar certo é também um ato de dignidade: de reconhecer que seus esforços importam, que o cuidado vale, que a mudança é possível. E cuidar da saúde mental é permitir que esse “dar certo” seja uma experiência humana plena, com pausas, com suporte, com vulnerabilidade.

Termino te convidando a olhar para essa semana com essa pergunta radical: “E se eu desse certo”? Sem medo, ou com medo, mas com presença. Olhe para o seu corpo, para a sua mente, para o seu desejo. E lembre-se: coragem também é acolher o que vem depois do “sim”. Que você possa respirar essa possibilidade é que ela flua com gentileza, clareza e humanidade.

Que o seu “dar certo” aconteça, com saúde, coragem, esperança e leveza. Respira, é humano!

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