Augusto Fidélis
“Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Esta frase é uma inscrição que aparece na porta de um cemitério em Buenos Aires, num documentário que vi recentemente. Com a proximidade do Dia de Finados, o tema me veio à cabeça: a fugacidade da vida, a luta para se viver em meio a tantas dificuldades. Com isso, aparece outra questão: todo ser vivo morre; eu sou um ser vivo, então vou morrer. Às vezes pergunto-me: por que tem de ser assim?
A morte é muito traiçoeira, então, o melhor é manter distância. Rogo a Deus todos os dias para que aumente a minha fé. Apesar disso, em certos momentos, são tantas as dúvidas! Não entendo porque tudo tem de ser tão misterioso, tão incerto, às vezes tão tenebroso.
No seu artigo “Entendendo a morte como parte da vida”, publicado no Jornal de Opinião, Dirlene Ferreira salienta que a “aceitação da morte é diferente de acordo com a crença religiosa e até mesmo com a filosofia de vida de cada cultura”. Porém, o sentimento de angústia que a morte traz é inerente a todo ser humano. O que faz a diferença é a forma como cada religião ou cultura lida com essa angústia, na tentativa de superá-la”. No Ocidente, a ideia de morte é apavorante devido ao apego excessivo às coisas materiais.
Na mesma edição, em “Finados – O olhar do teólogo”, padre João Batista Libânio alerta que “Todas as palavras das ciências calam-se diante da morte. A medicina luta até o último instante de vida do paciente. Quando os sinais vitais se apagam, ela amarga a derrota. Nesse momento entra a religião”. A sabedoria evangélica consola: “Se o grão de trigo não morrer, não dará frutos”. Assim, todo aquele que nasce deve morrer. A morte é a única certeza que temos na vida.
Diante de um problema tão grande e sem solução, há a necessidade do ser humano cultivar outros valores. Viver na opulência é ótimo, mas não pode ser a única meta do ser vivente. É preciso plantar amizade, concórdia, amor e paz entre os semelhantes. É preciso dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede. Se é verdade que existe um tribunal celeste, onde as almas são julgadas segundo os seus atos, são esses pobres que vão dar testemunho a favor do condenado. Por outro lado, as boas obras servirão para pavimentar o caminho de quem anda na terra a caminho do céu.
Diante de tudo isso tirei minhas conclusões: bobagem resistir além da conta, mas também não tenho que entregar o ponto sem lutar com bravura até o último instante. Agora, quando chegar a hora derradeira, e que seja o mais tarde possível, partirei sem rancores, sem mágoas. Terá valido a pena viver, ter conhecido você e poder chamá-lo de amigo ou amiga. Nesta vida tudo passa, não restarão a vaidade nem o orgulho. Talvez seja melhor assim!
