Será que a Presidência da Câmara de Divinópolis está, de fato, preocupada com o interesse público? A pergunta ecoou entre as diversas pessoas que, na tarde desta terça-feira, 28, lotaram o plenário à espera da votação do Projeto de Lei 026/2025, mas saíram de lá com frustração, revolta e uma sensação amarga de descaso. O projeto, que autoriza o fornecimento gratuito de sensores de monitoramento contínuo de glicose (MCG) para pacientes com diabetes tipo 1, foi retirado de pauta de última hora, sob a justificativa genérica de um “problema técnico”. Nenhuma explicação clara, nenhum aviso prévio, nenhum respeito com quem esperou por horas.
O que deveria ser um dia de avanço e sensibilidade se transformou em mais um retrato da desorganização e da falta de transparência no Legislativo divinopolitano. Mães, pais e pacientes chegaram cedo, muitos por volta das 14h, acreditando que veriam a votação de uma medida que pode mudar vidas. Já passava das 17h quando o presidente da Casa, Israel da Farmácia (PP), anunciou o adiamento. O resultado foi previsível: protestos, indignação e um sentimento coletivo de que o interesse público, mais uma vez, ficou em segundo plano.
É claro que todo projeto de lei precisa ser analisado com responsabilidade técnica e financeira. O poder público deve garantir que as ações sejam viáveis, sustentáveis e alcancem quem realmente precisa. Mas isso não pode servir de desculpa para a falta de planejamento e de comunicação. Quando a pauta é alterada de forma abrupta, sem explicações completas, e diante de um plenário cheio, o recado que fica é de desrespeito.
A proposta, assinada pelos vereadores Josafá Anderson (Cidadania) e Dr. Delano (PL), representa um avanço real no tratamento do diabetes tipo 1. O sensor de glicose é uma tecnologia que salva vidas. Ele não apenas facilita o controle da doença, mas permite detectar crises de hipoglicemia antes que se tornem fatais. O impacto é direto na qualidade de vida dos pacientes e também no sistema de saúde, já que o monitoramento contínuo reduz hospitalizações e complicações.
Mas nada disso pareceu sensibilizar a Mesa Diretora, que conduziu a situação de forma desastrosa. A decisão de retirar o projeto sem diálogo prévio com os parlamentares e sem uma explicação pública convincente foi de total infelicidade. Afinal, o Legislativo não é uma instituição privada, é a Casa do povo. E o povo estava lá, assistindo.
Mais grave ainda é o simbolismo desse adiamento. Em um momento em que o país inteiro discute transparência, eficiência e empatia nas políticas públicas, Divinópolis dá um passo atrás. Se o problema era técnico, que se explicasse de maneira técnica. Se havia dúvidas jurídicas, que se esclarecesse com o setor responsável, como o jurídico. Mas o que se viu foi silêncio, improviso e constrangimento, ingredientes que minam a confiança da população e desgastam a credibilidade da Casa.
O movimento das chamadas “Mães Pâncreas”, mulheres que dedicam a vida a cuidar dos filhos com diabetes tipo 1, esteve presente, representando uma luta legítima e urgente. É evidente que o projeto precisa de ajustes, estudos e critérios de distribuição. A fila de pacientes é grande, e é fundamental garantir que a implementação seja responsável. Mas responsabilidade não é sinônimo de opacidade. É perfeitamente possível ser prudente e transparente ao mesmo tempo. O que não pode é o poder público agir como se estivesse fazendo um favor à população.
A Câmara, representada pela Presidência, precisa entender que o verdadeiro problema técnico que enfrentou nesta terça-feira não estava no sistema, mas na postura política. Faltou sensibilidade, faltou comunicação, faltou respeito. E, se o episódio servir para alguma coisa, que seja de lição: o interesse público não pode ser retirado do debate.
