Da redação
Dez anos após o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), que despejou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração na bacia do Rio Doce, o meio ambiente e as comunidades atingidas ainda enfrentam consequências graves. Estudos especializados apontam que o rio sofreu uma significativa perda de biodiversidade, com substituição de espécies nativas por exóticas, enquanto centenas de famílias aguardam o cumprimento integral das promessas de reparação.
De acordo com o biólogo Frederico Fernandes, pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV), o rejeito de mineração simplificou drasticamente o habitat do rio:
— O fundo diversificado, composto por pedras e areias, foi transformado em um ambiente homogêneo de sedimentos. Isso reduziu a capacidade de abrigar espécies nativas e favoreceu a proliferação de espécies exóticas — afirmou.
A Fundação Renova, criada pelas empresas responsáveis (Samarco, Vale e BHP) para gerenciar a reparação, foi extinta em 2024, transferindo a responsabilidade ambiental para a Samarco. Especialistas avaliam que as ações executadas até o momento não conseguiram reverter os danos ambientais.
Impactos ambientais após uma década
- Redução significativa de espécies de peixes nativos
- Proliferação de espécies exóticas na bacia do Rio Doce
- Homogeneização do leito do rio devido aos rejeitos
- Insuficiência nas ações de recuperação ambiental
Situação das comunidades atingidas
Mônica Santos, ex-moradora de Bento Rodrigues, relata que as promessas de reassentamento não foram totalmente cumpridas:
— Ainda temos casas em construção e moradores desabrigados sem sequer projeto de casa. As casas que foram entregues ainda não estão no nome dos atingidos —
O desastre de 2015 matou 19 pessoas e deixou mais de 600 desabrigados. A Samarco informa que já destinou 68,4 bilhões de reais para ações de reparação, incluindo 32,1 bilhões em indenizações individuais. No entanto, muitas famílias ainda aguardam solução definitiva.
Contexto de segurança das barragens
Márcio Zonta, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, alerta que o Brasil mantém 74 barragens classificadas como de alto risco, sendo 31 em Minas Gerais:
— Mariana e Brumadinho representam o colapso de um modelo minerário que não dialoga com as comunidades. Enquanto não houver mudança estrutural, novos desastres continuarão sendo uma possibilidade concreta —
O agricultor Francisco de Paula Felipe, que há dois meses conseguiu se mudar para o reassentamento, resume o sentimento comum:
— Não foi fácil viver esses dez anos. Ainda espero ver minhas filhas concluírem os estudos e seguirem suas vidas —
