Lucas Maciel
Depois de mais de uma década de promessas, impasses e paralisações, o Hospital Regional Divino Espírito Santo, em Divinópolis, finalmente parece se aproximar de um desfecho. O governo de Minas anunciou uma nova medida que pode destravar a conclusão e o funcionamento da unidade, considerada essencial para o atendimento de média e alta complexidade em mais de 50 municípios da região.
O governador Romeu Zema (Novo) confirmou que o hospital foi retirado da lista de bens estaduais que seriam usados para abater parte da dívida de Minas com a União. O imóvel será doado à Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que assumirá a gestão por meio da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), responsável pelos hospitais universitários federais.
Definição
A decisão, segundo o governo, é uma forma de agilizar o início das operações e garantir que a unidade funcione 100% pelo SUS. De acordo com Zema, a definição foi tomada após acordo com o ministro da Educação, Camilo Santana.
— Decidimos, em comum acordo com o ministro Camilo Santana, que o Hospital Regional de Divinópolis será um hospital universitário. Estamos providenciando a doação, não só do imóvel, como de todos os equipamentos, para a Ebserh — afirmou o governador em entrevista à Rádio Itatiaia.
O governador destacou que o processo será formalizado por meio de projeto de lei a ser enviado à ALMG, autorizando a doação do prédio avaliado em cerca de R$ 184 milhões.
— Essa doação é necessária para que a UFSJ e a Ebserh possam assumir o hospital. Eles não podem administrar uma entidade da qual não sejam proprietários. Nosso objetivo é resolver uma questão jurídica e permitir que o hospital comece a funcionar o quanto antes — explicou.
Dois projetos, que já estão em tramitação na Assembleia Legislativa, tratam sobre este tema. As propostas foram apresentadas pelos deputados Lohanna França (PV) e Eduardo Azevedo (PL), que, apesar das diferenças políticas, têm atuado de forma alinhada para destravar a obra e garantir o início das atividades da unidade.
Avanço e expectativa
Zema afirmou que o hospital, que atenderá mais de 1,3 milhão de pessoas, será fundamental para fortalecer a rede pública de saúde. Ele também comparou a situação com outras obras paralisadas herdadas de gestões anteriores.
— Quando assumi o governo, herdei um grande cemitério de obras inacabadas. Hoje, posso dizer que estamos entregando praticamente todas, inclusive os hospitais regionais, que estão em fase final — declarou.
O Hospital Regional está em construção há mais de uma década e, segundo o governo de Minas, contará com 202 leitos, sendo 30 de UTI, além de unidades neonatal e de cuidados intermediários.
Repercussão local
O anúncio foi recebido com entusiasmo por lideranças políticas da região. O prefeito Gleidson Azevedo (Novo) destacou que a decisão é fruto da mobilização coletiva entre municípios e representantes locais.
— Muito disso aconteceu pela mobilização que eu e a Gleide fizemos junto com mais de 50 municípios em Brasília, na semana passada. Nessa ligação, o Zema garantiu que ia retirar o hospital da lista e enviar o projeto de doação para a UFSJ — afirmou o prefeito.
Ele também reforçou a importância da aprovação rápida do projeto de lei na ALMG.
— Agora pedimos aos deputados que votem imediatamente, para que o hospital seja inaugurado o quanto antes. Essa mobilização mostrou que, quando os políticos se unem num propósito só, o resultado aparece — completou.
A secretária Nacional de Finanças do PT, Gleide Andrade, também comemorou o anúncio, destacando o papel da união entre diferentes forças políticas.
— Isso é o resultado do trabalho que fizemos em Brasília, eu, o prefeito Gleidson e vários prefeitos da região. Prova que as diferenças partidárias não podem estar acima do bem comum. O sonho do hospital começa agora a se tornar realidade — ressaltou.
Além dos dois, diversos outros políticos e lideranças da região se posicionaram através das redes sociais, comemorando a decisão.
União política
A movimentação dos últimos dias reforça um ponto que tem se mostrado decisivo em toda a trajetória do Hospital Regional: a força da união política em torno de uma pauta comum. A ida de prefeitos, vereadores e representantes de mais de 50 cidades a Brasília, na semana passada, marcou um raro momento de convergência entre lideranças de campos opostos.
O grupo participou de uma série de reuniões com ministros, entre eles Camilo Santana (Educação), Fernando Haddad (Fazenda) e Alexandre Silveira (Minas e Energia), levando um manifesto conjunto em defesa da conclusão do hospital.
A mobilização, articulada por Gleide Andrade, contou com a presença de nomes como o prefeito Gleidson Azevedo e o vereador Vitor Costa (PT), além de coordenadores do Cis-Urg Oeste e representantes da UFSJ. Apesar das diferenças partidárias, o objetivo comum — garantir que o hospital saia do papel — se sobrepôs às disputas locais e eleitorais.
Nos bastidores, a avaliação é de que a pressão política e institucional da comitiva mineira ajudou a acelerar as conversas entre o governo estadual e o Ministério da Educação, culminando na decisão de Zema.
Estrutura
O Hospital Regional vai atender 54 municípios da região. A edificação tem 16.761,80 metros quadrados de área construída em um terreno de 53.464 metros quadrados e foi projetada para atender casos de média e alta complexidade.
De acordo com o governo Estadual, serão 202 leitos, sendo 30 de UTI, dez de UTI neonatal, outros dez de Cuidados Intermediários Neonatais convencional (UCI) e cinco de UCI Canguru. Também contará com 69 leitos de internação adulta, 31 para internação pediátrica, 20 leitos de observação no pronto atendimento, três de emergência e 12 consultórios para urgência e emergência.
O hospital disponibilizará atendimentos de obstetrícia clínica, obstetrícia cirúrgica, além de Centro de Parto Normal (CPN) tipo II e Gestação de Alto Risco (GAR) tipo II.
Os recursos de R$ 40 milhões para a conclusão do HRDV são provenientes do Acordo Judicial assinado entre o Governo de Minas, o Ministério Público de Minas Gerais, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública de Minas e a mineradora Vale S.A após o rompimento das barragens em Brumadinho, em 2019, que tirou a vida de 272 pessoas e provocou uma série de danos sociais e ambientais.
Próximos passos
O Agora questionou o Estado a respeito do estágio atual das obras e de um possível prazo para a conclusão, no entanto, até o fechamento da matéria, por volta das 14h de ontem, a Superintendência Central de Imprensa se restringiu a falar apenas do anúncio de Zema e da estrutura da unidade.
