A votação da PEC 24, que elimina a necessidade de um referendo popular para a privatização da Copasa, é no mínimo curiosa. Decidir o futuro de uma empresa pública sem ouvir quem dela depende é um desrespeito à população. O tema voltou à pauta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ontem. A água é um direito essencial, não um produto sujeito à lógica do lucro. Retirar do cidadão o poder de opinar sobre sua gestão é calar a sociedade em um tema que deveria ser amplamente debatido. Privatizar sem consulta é ignorar que o bem público pertence, antes de tudo, ao povo. E isso não significa ser contra a privatização. Pelo contrário, é inclusive permitir que a iniciativa privada possa se manifestar, inclusive apresentando sugestões de modelos mais eficientes na gestão dos recursos hídricos. Ouvir a população somente durante a eleição para conquistar votos, isso muitos fazem. 

Vergonha geral 

E a primeira votação da PEC que prevê a privatização da companhia terminou em confusão na tarde desta quarta-feira, no Plenário da ALMG. A oposição, que até então obstruia a pauta, tentou votar o texto de forma rápida, enquanto a base governista não reunia em plenário os 48 votos necessários para a aprovação. Assim, foram 47 favoráveis, quando a confusão começou. Em meio a gritos, troca de farpas e empurrões, os nobres deputados que estavam no meio do alvoroço, ouviam o coro de “vergonha” dos servidores da e estatal que assistiam à reunião.  Até então, reprovada e motivos de comemoração para os trabalhadores que há muito esperam por um desfecho da situação.  Mas, não é que tudo mudou com o voto de um dos principais apoiadores do governo mineiro e da direita? Isso mesmo.  Bruno Engler (PL) sacramentou a não exigência de uma consulta popular para a privatização da companhia. Ah, se o povo acompanhasse seus representantes! Ano que vem tem eleição. 

Nova análise 

Com a aprovação, a proposta, considerada estratégica pelo governo Zema, autor do texto — para viabilizar a venda da Copasa e a adesão de Minas ao Propag, ainda precisa passar por novo crivo na Comissão Especial antes da votação em segundo turno. Como o intervalo mínimo entre as votações é de três dias, a decisão final deve ocorrer na próxima semana. Se passou agora, mesmo em meio a tantos protestos, não há dúvidas que o caminho está livre. Foram quase quase dez horas de sessão, em meio a tumulto e manobras regimentais, o que deve se repetir na semana que vem.  A votação desta quarta, teve presença de 71 dos 77 deputados. O presidente da Casa, Tadeu Martins Leite (MDB), não vota, e João Vítor Xavier (Cidadania) está licenciado. A lista dos favoráveis, e não, está disponível. Muito fácil saber que foi contra a participação popular. 

Missão árdua 

A disputa pelo governo de Minas ganha mais um nome: Gabriel Azevedo (MDB). Sua pré-candidatura foi oficializada ontem pelo partido. Azevedo já foi vereador, presidente da Câmara Municipal e, na última eleição, concorreu à Prefeitura de Belo Horizonte. Até o momento, o único concorrente é o vice-governador Mateus Simões, agora no PSD. A esquerda vive uma indefinição diante da falta de vontade de seus principais personagens. O senador Rodrigo Pacheco (PSD), que tanto desejava a vaga deixada pelo ministro Barroso no STF, parece pouco atraído à disputa eleitoral de 2026. Já a prefeita de Contagem, Marília Campos, já deixou claro que prefere brigar por uma cadeira no Senado. Enquanto na esquerda faltam interessados, na direita sobram. Os principais nomes são, obviamente, o senador Cleitinho (Republicanos) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL). A árdua missão de costurar uma articulação está nas mãos de Simões, que quer o apoio do centro e da direita à sua candidatura. Não será fácil, visto que tanto Azevedo quanto Ferreira aparecem favoritos nas pesquisas recentes. Já os candidatos Gabriel, por exemplo, podem traçar estratégias pensando não necessariamente em ganhar a eleição, mas apenas em chegar ao segundo turno. E, a partir daí, convencer o eleitorado de ser o candidato mais moderado, pregando uma visão menos polarizado e ideológica do debate político

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