Do Corpo ao Bolso (Séculos XIV – XVIII)
O tempo, esse rio invisível que a tudo devora e cria, sempre desafiou o engenho humano. Antes de habitar o pulso, a marcação das horas era uma sinfonia de elementos: a sombra no relógio de sol, o gotejar constante da água nas clepsidras, e a lenta passagem da areia nas ampulhetas. A precisão, no entanto, era um sonho distante.
O verdadeiro prelúdio para o relógio moderno surge no século XIV, com a invenção do relógio mecânico. Enormes, pesados e instalados em torres de igrejas, eles eram a voz da autoridade e o novo ritmo da vida urbana.
Quando a tecnologia finalmente se miniaturizou, no século XVI, nasceu o relógio de bolso. Um tesouro portátil, frequentemente adornado com jóias e reservado à nobreza. Contudo, a semente do relógio de pulso já havia sido plantada, ainda que de forma incipiente. Registros nebulosos do ano 1571 mencionam um objeto semelhante como jóia para o braço, mas era mais um adorno do que um instrumento de precisão.
Final do Século XVIII – Início do Século XIX)
A virada do século XVIII para o XIX marca o momento em que a história técnica e a história social do relógio de pulso se cruzam de forma inegável.
Em 1790, em um livro de contas da empresa genovesa Vaquet-Droz & Leschot, encontra-se a primeira referência exata a um relógio “enlaçado no braço”. Mas é o mestre relojoeiro Abraham-Louis Breguet quem recebe o crédito pelo primeiro relógio de pulso documentado.
Em 1810, Breguet foi encarregado de criar uma pulseira com relógio para a Rainha de Nápoles e irmã de Napoleão, Carolina Murat. Era uma peça totalmente exclusiva, mais uma joia extravagante do que um utensílio prático. Da mesma forma, em 1868, a relojoaria Patek & Philipe produziu outro exemplar para a condessa húngara Koscowicz.
Neste período, o relógio de pulso era visto quase que exclusivamente como um acessório feminino, um toque delicado de joalheria para o braço. Os homens, por sua vez, continuavam a confiar nos sóbrios e robustos relógios de bolso, desprezando a versão de pulso como algo “afeminado”.
Início do Século XX)
A visão do relógio de pulso como mero ornamento feminino começou a ser desafiada com a ascensão da aviação. O pioneiro brasileiro Alberto Santos Dumont, figura emblemática no céu de Paris, sentia a frustração de ter que soltar o manche de seu avião para retirar o relógio do bolso e checar o tempo.
Em 1904, Santos Dumont desafiou seu amigo e relojoeiro Louis Cartier a criar algo que lhe permitisse cronometrar seus voos sem tirar as mãos dos comandos. Cartier respondeu com o modelo “Santos-Dumont”: um relógio de pulso com uma pulseira de couro. A peça não era apenas funcional; era um símbolo de modernidade e aventura.
A partir desse momento, o uso do relógio de pulso entre os homens ganhou um endosso de prestígio, associando-se à inovação, à engenharia e à audácia.
Popularização Definitiva (1914 – 1918)
O ponto de virada definitivo, que tirou o relógio de pulso de sua reputação “afeminada” e o consagrou como um item masculino e universalmente prático, foi a Primeira Guerra Mundial.
No campo de batalha, a precisão e a coordenação eram vitais. Os oficiais e soldados não podiam perder tempo tirando um relógio de bolso – o perigo exigia uma verificação de tempo imediata. O relógio de pulso, muitas vezes adaptado do modelo de bolso por meio de alças soldadas, provou ser uma solução inestimável para sincronizar ataques de artilharia e movimentos de tropas. Ele se tornou uma ferramenta de sobrevivência.
Com o fim da guerra em 1918, os soldados trouxeram a praticidade desse acessório para a vida civil, e a moda se espalhou pelo mundo.
Meados do Século XX – Presente)
O século XX foi uma era de ouro para a inovação relojoeira, marcada pela busca incessante pela precisão e funcionalidade:
1926: Surge o primeiro relógio de pulso à prova d’água (o Rolex Oyster), permitindo a aventura em novos ambientes.
Década de 1930: Os relógios automáticos (que se dão corda com o movimento do pulso) se popularizam, eliminando a necessidade de corda manual diária.
Década de 1960/70: A invenção do movimento a quartzo revoluciona a indústria. Usando a vibração de um cristal de quartzo, esses relógios superaram em precisão os mecanismos mecânicos tradicionais, tornando-se acessíveis a todos.
1969: A conquista espacial consagra o relógio: o Omega Speedmaster é o primeiro a ser usado na Lua por Neil Armstrong.
Século XXI: O relógio de pulso transcende sua função original, tornando-se o Smartwatch. Agora, ele não apenas mede o tempo, mas monitora a saúde, conecta o mundo e reflete a essência do seu portador.
Da jóia da realeza à ferramenta de guerra, do acessório de voo ao computador de pulso, o relógio traçou uma jornada que é, em si, uma crônica do desejo humano de dominar e compreender a eterna dança do tempo.
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Welber Tonhá e Silva – Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.
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