A força do vento em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, não varreu apenas casas e telhados, levou consigo a ilusão de que o Brasil ainda pode se dar ao luxo de ignorar uma crise climática. O tornado que devastou o município, com ventos acima de 250 km/h, matou ao menos seis pessoas, feriu centenas e destruiu quase toda a cidade. Um evento classificado como F3, raro, mas não inédito, que deixa um rastro de destruição e uma pergunta que o país insiste em não responder: até quando vamos tratar tragédias previsíveis como fatalidades inevitáveis?
Não há como evitar um tornado. A natureza seguirá seu curso, com ou sem a nossa permissão. Mas a intensidade desses fenômenos e o tamanho da devastação que eles causam dependem, em grande parte, das escolhas humanas. Se houvesse maior atenção ao meio ambiente, planejamento urbano adequado e políticas de prevenção em áreas de risco, a destruição seria menor. E é justamente essa combinação entre a degradação ambiental e a falta de preparo que transforma um desastre natural em uma catástrofe humanitária.
A ciência tem mostrado que o clima já mudou. De acordo com o Banco de Dados de Riscos e Impactos Meteorológicos da América do Sul (SAMHI), o número de eventos extremos no continente aumentou mais de 600% desde 2018. Foram 5.545 registros de tornados, tempestades de granizo e ventos acima de 80 km/h em apenas cinco anos. Antes desse período, toda a série histórica contabilizava 784 ocorrências. O crescimento é assustador e o Sul do Brasil está entre as regiões mais atingidas.
Não é coincidência. Historicamente, o sul da América do Sul é uma zona propícia a tempestades severas. Mas a combinação de desmatamento, alterações no uso do solo e aumento das temperaturas globais tem intensificado esses fenômenos. O que antes era raro, agora é recorrente. E, diante dessa nova realidade, seguir sem planejamento é condenar cidades inteiras a reviver o mesmo sofrimento.
Enquanto Rio Bonito do Iguaçu conta seus mortos e tenta reconstruir o que o vento levou, líderes de quase 200 países discutem em Belém, na COP30, soluções para conter o avanço da crise climática. A ironia é cruel: 2.700 quilômetros separam o epicentro da tragédia no Paraná da conferência que promete “agir pelo futuro”. Mas, na prática, o futuro já chegou e ele sopra forte.
O desafio que se coloca não é apenas reduzir emissões, mas preparar as populações mais vulneráveis para um mundo que será, inevitavelmente, mais hostil. Isso passa por políticas públicas que priorizem adaptação, alertas meteorológicos eficazes, infraestrutura resiliente e um compromisso real com o meio ambiente. O Brasil não pode continuar reagindo apenas depois da tragédia.
O governador decretou estado de calamidade, o governo federal enviou ajuda, e as manchetes se encheram de promessas de reconstrução. Mas reconstruir não basta. É preciso repensar e agir. Porque, se a devastação no Paraná ensina algo, é que a omissão também mata.
Tornados não podem ser evitados. Mas podem ser menos intensos, menos cruéis, menos letais. E isso só será possível quando o país entender que cuidar do meio ambiente e planejar o futuro não é idealismo: é sobrevivência. Se a COP30 quer realmente marcar uma virada, que comece por reconhecer o óbvio: o planeta já está reagindo, e cada vento dessa intensidade sopra como um aviso.
