Não é preciso morrer para ser esquecido neste país, basta envelhecer. O que deveria ser uma fase de reconhecimento e cuidado tem se transformado em sinônimo de abandono, descaso e humilhação. Este tema, tão importante, voltou ao centro do debate público nos últimos dias, e por boas razões.
No domingo, milhões de jovens refletiram, no Enem, sobre as “perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Na segunda-feira, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) foi palco de um triste retrato dessa realidade: idosos relataram, em audiência da Comissão de Direitos Humanos, violações de direitos e situações degradantes durante a VI Conferência Estadual da Pessoa Idosa, organizada pelo próprio governo, que aconteceu de 5 a 7 de outubro, em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
As denúncias são revoltantes. A poucos dias do início da conferência, nem mesmo a sede do evento estava definida, o que já anunciava o desastre. O resultado foi o caos: filas intermináveis, falta de alimentação adequada, ausência de acessibilidade e idosos passando mal sem qualquer socorro. Um encontro que deveria discutir políticas de valorização da velhice acabou por simbolizar exatamente o contrário: o desprezo institucionalizado.
Quando o Estado falha em garantir condições básicas de acolhimento em um evento destinado a debater os direitos da pessoa idosa, o que esperar da execução cotidiana dessas políticas?
Essa negligência é percebida claramente nos números. Em Minas Gerais, a violência contra idosos é rotina: mais de 400 vítimas em apenas três semanas de outubro, segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública, uma média de 19 por dia. Em Divinópolis, a realidade é igualmente alarmante: 1.356 violações de direitos foram registradas até meados de outubro, e apenas 257 resultaram em denúncias formais.
A maior parte dos casos permanece no silêncio, sufocada pela vergonha, pelo medo e pela ausência de canais acessíveis. A forma como o Brasil trata seus idosos diz mais sobre o nosso atraso do que qualquer indicador econômico.
É por isso que iniciativas como a lei aprovada em Divinópolis, que cria um canal para denúncias de violações, merece reconhecimento. Não por ser inovadora, mas por ser o mínimo. É urgente transformar discursos em ações, garantir estrutura, fiscalização e, sobretudo, empatia. O envelhecer não pode continuar sendo um exercício de resistência solitária.
Mas uma lei municipal, isoladamente, não basta. O envelhecimento da população brasileira exige um pacto coletivo entre governo, sociedade e famílias para enfrentar o preconceito, a negligência e a exclusão que ainda marcam a velhice no país. Políticas públicas efetivas não se fazem apenas com discursos emocionados, mas com orçamento, fiscalização e compromisso ético.
É hora de o poder público, em todas as esferas, abandonar a retórica e assumir a responsabilidade de garantir um envelhecer digno. O respeito à pessoa idosa não é favor, é dever constitucional e moral. Enquanto o Brasil continuar tratando seus idosos como peso, e não como patrimônio humano, envelhecer continuará sendo um ato de resistência.
