Há tragédias que devastam cidades. Há outras, ainda mais perversas, que corroem o que sobra da esperança. A operação “Lamaçal”, deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União, é o retrato mais cruel de um Brasil que parece incapaz de aprender com a dor. Em meio às águas que arrastaram casas, sonhos e vidas no Vale do Taquari, brotava outro tipo de enchente, silenciosa, fria, planejada, feita de contratos superfaturados, licitações suspeitas e desvio de recursos que deveriam aliviar o sofrimento de quem perdeu tudo.
O nome da operação é preciso: Lamaçal. Porque é exatamente isso que se tornou o cenário da administração pública quando o interesse privado se sobrepõe à vida. Segundo a investigação, cerca de R$ 120 milhões em contratos firmados pela Prefeitura de Lajeado estão sob suspeita. Dinheiro que veio do Fundo Nacional de Assistência Social, destinado a políticas emergenciais após a catástrofe climática de 2024 e que, ironicamente, pode ter sido usado para engordar bolsos em vez de reconstruir lares.
Enquanto famílias dormiam em abrigos improvisados e cidades inteiras lutavam por água potável e alimento, havia quem aproveitasse o caos para manipular licitações, superfaturar serviços e drenar recursos de uma tragédia. É uma ferida ética que dói mais do que qualquer enchente. É a institucionalização da insensibilidade e a transformação da calamidade em oportunidade de lucro.
Não se trata apenas de corrupção: é a profanação da dor coletiva. O Estado que deveria acolher, amparar e reconstruir se transforma em cúmplice da injustiça quando permite que o dinheiro da emergência vire negócio. E isso não é exceção, é sintoma de um país em que a impunidade e a desfaçatez caminham de mãos dadas. A cada operação, a cada escândalo, a cada nota oficial recheada de “confiança na Justiça”, o Brasil vai se acostumando ao absurdo.
Os números são frios, mas o impacto é humano. Pense nas famílias de Muçum, Encantado, Lajeado… cidades soterradas pela água e agora também pela vergonha. Pense nas crianças que perderam os brinquedos, nos idosos que perderam as lembranças, nos pequenos comerciantes que viram o trabalho de uma vida ser levado pela correnteza. Agora, pense que o dinheiro que poderia reconstruir essas histórias talvez tenha sido desviado para empresas fantasmas e contratos forjados.
Há quem diga que a tragédia revela o caráter de uma nação. No caso do Rio Grande do Sul, ela revelou também a podridão de um sistema que não poupa nem os que sofrem. O Brasil precisa reagir e isso não vai acontecer com notas de repúdio ou discursos vazios, mas com punição exemplar e transparência radical. É inadmissível que tragédias climáticas sejam vistas como brechas para negócios.
O país que se solidarizou com o povo gaúcho agora assiste, indignado, à lama moral que tenta encobrir a tragédia natural. Que essa operação vá além das manchetes, o desejo de todos é que leve à responsabilização real, à devolução do dinheiro e, sobretudo, à restauração da dignidade de quem foi duplamente atingido: primeiro pela força da natureza, depois pela ganância humana.
Porque, no fim das contas, há uma enchente tão devastadora quanto a das águas: a da corrupção que insiste em afogar o Brasil.
