Operação “Virtude”: mais de 80 prisões e centenas de vítimas atendidas em Minas

Iniciativa coordenada pela Sejusp mobilizou forças de segurança e revelou a urgência de políticas permanentes de proteção 

Da Redação

A violência contra idosos, uma das expressões mais silenciosas e cruéis da desigualdade social, foi o foco da operação “Virtude”, deflagrada em toda Minas Gerais durante o mês de outubro. A ação, coordenada pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG), reuniu mais de 4,3 mil profissionais e 1.933 viaturas, em uma força-tarefa que resultou em 88 prisões e no atendimento a 633 vítimas.

A operação mobilizou Polícia Militar (PM), Polícia Civil (PC), Corpo de Bombeiros (CB), Ministério Público (MP), Defensoria Pública e secretarias estaduais, em um esforço conjunto que uniu ações repressivas, preventivas e educativas. Foram registradas 437 denúncias de crimes contra idosos, 355 já apuradas, além da instauração de 367 inquéritos e 581 boletins de ocorrência.

Operação

Segundo o secretário de Justiça e Segurança Pública, Rogério Greco, o resultado mostra que a integração entre as instituições é a chave para um combate efetivo à violência.

— Em apenas um mês, conseguimos ampliar o alcance das ações, atender centenas de vítimas e responsabilizar agressores. A ação mostra que proteger a população idosa é proteger nossa própria dignidade coletiva — afirmou.

O Corpo de Bombeiros Militar também teve papel importante, com 2.998 atendimentos pré-hospitalares durante o período. Paralelamente, o MP e a Vigilância Sanitária fiscalizaram Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), emitindo notificações e recomendações para corrigir irregularidades e ampliar a segurança dos abrigos.

Além das prisões e investigações, a dimensão educativa da operação foi destaque: mais de 3,8 mil pessoas participaram de palestras e ações presenciais, enquanto 11 mil foram alcançadas por campanhas digitais, que reforçaram a importância de denunciar maus-tratos, negligência e abusos.

Rede de proteção 

Em meio ao esforço estadual, Divinópolis deu um passo concreto na luta contra esse tipo de violência. A Prefeitura sancionou, em 30 de outubro, a Lei nº 9.621/2025, que cria o Serviço Municipal de Recebimento de Denúncias de Violações de Direitos dos Idosos.

A nova legislação prevê atendimento telefônico humanizado, com orientação jurídica e encaminhamento dos casos à rede municipal de proteção. Profissionais capacitados serão responsáveis por acolher e ouvir as vítimas de forma sigilosa, garantindo respeito e sensibilidade.

A secretária municipal de Assistência Social, Juliana Coelho, destacou que o canal será um avanço no enfrentamento da invisibilidade.

— Muitos idosos sofrem calados. O novo serviço é uma forma de romper esse silêncio e garantir que cada denúncia seja ouvida e acolhida com respeito — afirmou.

A lei foi proposta pelo vereador Matheus Dias (Avante) e tem o objetivo de fortalecer o elo entre o poder público e a população, ampliando o alcance da rede de proteção social.

Problema que cresce em silêncio

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam que Divinópolis registrou 1.356 violações de direitos contra idosos entre janeiro e outubro deste ano, casos que incluem negligência, violência psicológica, abusos financeiros e abandono. Apesar da gravidade, apenas 257 denúncias foram formalizadas.

Em todo o estado, mais de 400  pessoas desta faixa etária foram vítimas de violência nas três primeiras semanas de outubro, o equivalente a 19 casos por dia.

Para a psicóloga Eloiza Vieira, especialista em saúde mental, a violência contra o idoso é, muitas vezes, silenciosa.

— Vai além da agressão física. Se manifesta na negligência, na omissão e no isolamento. Muitos vivem o envelhecer como um processo de apagamento, sentindo-se inúteis e descartáveis — explica.

Ela ressalta que a cultura da produtividade e o preconceito etário agravam a exclusão.

— Vivemos em uma sociedade que vê o idoso como um fardo. Romper esse ciclo exige empatia, políticas públicas e mudança de mentalidade — destacou. 

A visão das instituições

O coordenador estadual de Defesa da Pessoa Idosa da Defensoria Pública de Minas Gerais, Luiz Renato Braga Áreas Pinheiro, destaca que a maioria dos casos envolve violência psicológica e patrimonial.

— São comuns interdições indevidas, controle abusivo de bens e golpes financeiros. O idoso é privado de sua autonomia e, muitas vezes, de sua própria voz — afirma.

A Sejusp informou que a operação “Virtude” terá continuidade com novas fases de fiscalização, apuração de denúncias e campanhas educativas em todo o estado.

O silêncio também é violência

Segundo especialistas, o maior desafio é romper o silêncio. A dependência emocional e financeira faz com que muitos idosos não denunciem os próprios agressores, que, em grande parte, são familiares próximos.

— Dar voz a quem é silenciado é um ato de justiça social — reforça Eloiza. 

— Escutar os idosos, respeitar seus ritmos e valorizar suas presenças é o primeiro passo para devolver dignidade à velhice — reforça.

Com a nova lei e o fortalecimento das ações conjuntas entre Estado e municípios, Minas Gerais busca transformar a proteção ao idoso em uma política permanente de respeito e cuidado, um compromisso que vai além da repressão, e se estende à construção de uma cultura de empatia, solidariedade e dignidade na velhice.

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