Vítima do 45º assassinato usava tornozeleira eletrônica

Divinópolis já ultrapassa em 2025, o número de homicídios de 2024;  jovens seguem como principais alvos 

Elian Ozéias

Divinópolis voltou a registrar mais um homicídio, aumentando a estatística de 2025. Desta vez, o crime violento foi registrado na  última sexta-feira, 14, somando assim, o 45º assassianto do ano. O crime ocorreu por volta de 18h30, na rua Maria da Conceição, no bairro Quintino, após moradores ouvirem uma sequência de tiros. Relatos apontam que a vítima, um jovem de 24 anos, pode ter sido atingida por cerca de 30 disparos. Quando os militares chegaram ao local,  o encontraram caído no chão, já sem vida.

A Polícia Militar (PM) confirmou que ele usava tornozeleira eletrônica. O jovem acumulava diversas passagens policiais, incluindo tráfico de drogas, roubo, porte ilegal de arma de fogo, desobediência, lesão corporal, desacato, além de registros como foragido da Justiça. Ele era monitorado pelo sistema prisional no momento da execução.

Testemunhas relataram que os autores estavam em uma caminhonete Nissan Frontier e fugiram sentido MG-050 logo após os disparos. Até o fechamento desta página, por volta das 15h, o rastreamento continuava, mas nenhum suspeito havia sido detido.

Perfil das vítimas

Os 45º homicídios registrados neste ano são quase o dobro dos 23, em 2024 inteiro. O levantamento feito pelo Jornal Agora mostra que a maioria das vítimas é jovem: 28 tinham menos de 30 anos. A faixa etária mais atingida é a dos 25 anos, com nove mortes.

Os números indicam uma escalada preocupante. Em setembro, a cidade viveu o pico do ano, com sete homicídios. Outubro encerrou com cinco casos, e novembro já inicia com mais um assassinato. Se o ritmo continuar, 2025 pode encerrar com o maior índice de homicídios dos últimos cinco anos.

Homicídios por mês em 2025
Janeiro – 2
Fevereiro – 6
Março – 5
Abril – 2
Maio – 6
Junho – 3
Julho – 3
Agosto – 4
Setembro – 7
Outubro – 5
Novembro – 1 (até dia 17)
Cidade contabiliza 15 tentativas de homicídio. 

Para os agentes de segurança, a predominância de jovens entre as vítimas escancara o impacto direto do tráfico de drogas e de disputas entre facções e grupos criminosos, que intensificaram conflitos ao longo do ano.

‘O crime vira alternativa’

Para o cientista social Emanuel de Morais, a repetição de mortes entre jovens periféricos não é coincidência, mas resultado de um cenário social que empurra muitos deles para uma rota de fuga perigosa. Ele cita o rapper mineiro Djonga para ilustrar como o crime se torna, para parte da juventude, uma falsa promessa de saída.

— O crime fornece uma alternativa de subversão, revolta e ascensão social. Contudo, esse caminho sempre leva para a morte — afirma.

Segundo Emanuel, a desumanização é uma peça central nesse ciclo de violência.

— Ninguém ataca aquilo que ama. Para haver pilhas de mortos, o indivíduo precisa olhar para o outro como coisa, não como pessoa — frisa.

Ele explica que relações sociais são guiadas por uma hierarquia afetiva, o “ordo amoris”, conceito do filósofo Santo Agostinho. Quando o outro deixa de ter significado, deixa também de ter direito à vida.

Ainda assim, Emanuel lembra que a incoerência moral pode ser profunda:

— A mesma pessoa que mata pode ser devota religiosa. A moral humana é maleável e cínica —explica. 

O especialista também relaciona a violência à fragilidade dos vínculos sociais, descrita por Durkheim como “anomia”. Em um ambiente onde instituições falham e direitos básicos não chegam, os valores que sustentam a vida em comunidade se rompem.

— O desejo de consumo é forte na juventude. O dinheiro rápido oferece um vislumbre tentador para quem já vive uma vida que pouco valia a pena ser vivida — afirma.

O profissional conclui com uma frase de Djonga que, segundo ele, simboliza a urgência de resgatar vidas antes que sejam engolidas pelo ciclo da violência:

— Não veste a carapuça do vacilo, porque existe o perdão — enfatiza. 

Cidade em alerta

Enquanto a investigação avança, Divinópolis enfrenta, na opinião de especialistas, um cenário onde a violência homicida se torna cada vez mais frequente, e a juventude segue como principal vítima de uma realidade que mistura desigualdade, criminalidade e ausência de perspectivas.

A Polícia Militar reforça que denúncias anônimas podem ser feitas pelo 181. 

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