Divinópolis já registra 475 casos de violência doméstica em 2026

Dados até março mostram cenário de alta; no Brasil, cerca de 70% das agressões contra mulheres ocorrem dentro de casa

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Lucas Maciel

A violência doméstica continua marcando presença no cotidiano de Divinópolis e revela um cenário persistente e em crescimento nos últimos anos, sem sinais concretos de redução. Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o município registrou 1.897 ocorrências em 2025, contra 1.738 no ano anterior, um aumento de 9,1%. Mais do que o crescimento anual, o que chama atenção é a constância dos registros ao longo do tempo.

Na prática, isso significa que, mês após mês, os casos continuam acontecendo em ritmo elevado. Em 2024, a média era de cerca de 145 ocorrências mensais. Em 2025, esse número subiu para aproximadamente 158.

O início de 2026 mantém esse cenário. Entre janeiro e março, já foram contabilizados 475 casos, número praticamente igual ao mesmo período do ano passado, quando houve 470 registros. A estabilidade, nesse caso, não representa melhora, mas sim a manutenção de um nível alto de ocorrências.

Oscilações sem queda real

Os dados mês a mês mostram pequenas variações, mas sem qualquer tendência de redução. Janeiro começou com 152 casos, abaixo dos 170 registrados no mesmo mês de 2025. Em fevereiro, houve aumento, com 150 ocorrências. Já março fechou com 173 registros.

Esse comportamento reforça um padrão: os números mudam de um mês para outro, mas permanecem sempre em um patamar elevado, acima da marca dos 150 casos mensais.

O histórico recente confirma essa lógica. Em 2025, março foi o mês com maior número de ocorrências, com 175 casos, seguido por outubro, com 173. Em 2024, o pico também foi alto, com 180 registros em outubro. 

Violência dentro de casa

O que se observa em Divinópolis reflete um cenário nacional. Dados do Ligue 180 mostram que, em 2025, quase 70% das agressões contra mulheres ocorreram dentro de casa. Em muitos casos, o local que deveria representar segurança é justamente onde a violência acontece.

Os números detalham esse cenário: 40,76% das agressões ocorreram na residência da própria vítima e 28,58% em espaços compartilhados com o agressor. Outros 5,39% dos registros foram na casa do autor. O dado reforça que a violência está diretamente ligada às relações próximas, familiares ou afetivas.

Ao longo do ano passado, o Ligue 180 realizou mais de 1 milhão de atendimentos em todo o país, um aumento de 45% em relação ao ano anterior. Foram 155.111 denúncias formalizadas, o que representa uma média de 425 casos por dia.

Frequência

Outro aspecto que chama atenção é a frequência das agressões. Em vez de episódios isolados, grande parte dos casos ocorre de forma contínua. Em 31,86% das denúncias, as vítimas relataram agressões diárias. Em outros casos, a violência acontece semanalmente ou mensalmente, criando um ciclo difícil de interromper.

Esse padrão também aparece na duração das situações. Mais de 20% das mulheres afirmam conviver com a violência há mais de um ano, enquanto uma parcela menor relata episódios recentes. Há ainda casos ocasionais, mas eles são minoria diante da repetição observada na maior parte das ocorrências.

Múltiplas formas de agressão

A violência doméstica raramente se limita a um único tipo. Uma mesma denúncia pode reunir diferentes formas de agressão, o que explica o volume elevado de violações registradas. Em 2025, foram mais de 679 mil ocorrências desse tipo no país.

A violência psicológica aparece como a mais comum, presente em praticamente metade dos casos. Em seguida, estão as agressões físicas, que somam mais de 100 mil registros. Também aparecem situações de violência patrimonial, sexual e até casos de cárcere privado.

Esse conjunto mostra que a violência não é apenas física. Muitas vezes, ela começa de forma silenciosa, por meio de ameaças, controle ou humilhação, e pode evoluir para situações mais graves.

Quem são as vítimas

O perfil das vítimas também ajuda a entender o cenário. A maior concentração está entre mulheres de 26 a 44 anos, faixa que reúne mais de um terço das denúncias no país. Dentro desse grupo, os números se mantêm estáveis entre as idades, sem grandes variações.

Outro dado relevante é o recorte racial. Mulheres negras — pretas e pardas — representam mais de 43% das vítimas, enquanto mulheres brancas correspondem a cerca de um terço dos registros. Os dados indicam maior vulnerabilidade desse grupo no contexto da violência.

Regionalmente, o Sudeste concentra quase metade das denúncias do país, e Minas Gerais aparece entre os estados com maior número de ocorrências.

Casos recentes

Em Divinópolis, episódios recentes evidenciam como esses dados se traduzem na prática. Um dos casos de maior repercussão envolveu um médico psiquiatra, preso após agredir a esposa dentro de um apartamento na região central da cidade.

Segundo o registro policial, as agressões ocorreram ao longo de dois dias consecutivos e incluíram enforcamento, socos e impedimento de comunicação. Parte da violência aconteceu na presença da filha do casal, de dois anos. A Polícia Militar precisou arrombar a porta do imóvel para resgatar a vítima.

O suspeito foi preso em flagrante e, posteriormente, liberado mediante medidas cautelares, com uso de tornozeleira eletrônica.

Outro caso envolveu um homem de 39 anos, que invadiu a casa da ex-companheira, ameaçou a vítima de morte e agrediu a filha do casal. De acordo com a Polícia Militar, o autor não aceitava o fim do relacionamento e causou danos à residência antes da chegada da equipe.

Casos extremos

Os números mais graves também estão presentes no município. Em 2025, Divinópolis registrou quatro feminicídios consumados e cinco tentativas, o que evidencia o risco de evolução desses casos.

Violência vicária

No cenário nacional, outro dado em crescimento é a chamada violência vicária, quando o agressor utiliza filhos ou pessoas próximas para atingir a mulher. Em 2025, foram mais de 7 mil registros desse tipo. Já em 2026, a proporção desses casos aumentou nos primeiros meses do ano.

Denúncias em alta

Somente no primeiro trimestre de 2026, o Ligue 180 registrou mais de 300 mil atendimentos e 45.735 denúncias de violência contra mulheres em todo o país. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, houve aumento de 23% nas denúncias e de 14% nos atendimentos.

Canais

Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados por diferentes canais:

  • Ligue 180 (atendimento 24 horas)
  • 190 (Polícia Militar)
  • Delegacias, incluindo unidades especializadas
  • Disque 100 (direitos humanos)

O serviço também está disponível por WhatsApp e e-mail, ampliando as formas de acesso.

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