Augusto Fidelis

Num dia desses encontrei na rua Goiás, esquina com a avenida 1º de Junho, um velho amigo de Carmo da Mata, que acabava de chegar. Mostrava-se agitado e falava com sofreguidão. Logo me contou o motivo que o trouxe até aqui, onde pretendia passar alguns dias na casa dos parentes. Segundo ele, teve de fugir às pressas porque na terrinha morriam muitas pessoas do seu relacionamento. Por isso, ele tinha medo de ser confundido com outro da lista e encaminhado para o lado de lá, por engano.

Tudo isso me fez recordar as histórias que minha mãe contava. Nesta época do ano, em tempos que há muito se foram, a família toda se reunia em volta da fogueira, até o momento de se deitar no colchão de palha, barulhento, mas quentinho. Certa vez, ao ouvir de um visitante a afirmação de que pretendia viver eternamente, minha mãe contou um causo que ela ouviu da sua avó, mais ou menos assim:

Havia um homem muito pobre, miserável mesmo, mas com muitos filhos. Quando nasceu o último, já não tinha a quem chamar para batizar a criança. Então lhe ocorreu a ideia de convidar a Morte, e esta aceitou. Vendo as dificuldades do compadre, a comadre fez a seguinte proposta: “Vou fazer de você um médico. Vai ganhar dinheiro, se tornará muito rico e terá vida longa. Procederá da seguinte forma: quando for chamado para atender a um paciente, e me ver sentada na cabeceira da cama, deite o doente ao contrário, e eu vou me embora. Quando chegar a sua vez, mando avisar com antecedência”.

O compadre ganhou logo fama de melhor médico do mundo, que operava milagres. Em pouco tempo já não tinha onde guardar tanto dinheiro. A família esbanjava nos prazeres da vida. Os anos voaram e o compadre, entretido com a administração da fortuna, já não se lembrava mais do que havia acertado com a comadre. Porém, num belo dia, em que festejava o casamento de mais um filho, chegou uma pessoa que não estava na lista dos convidados, e entregou-lhe uma carta. Na missiva, a comadre comunicava ao compadre o dia e a hora do acerto. O compadre caiu em desespero. Colocou à disposição do mensageiro toda a sua fortuna, desde que ele pudesse continuar vivendo. O mensageiro, porém, não aceitou.

O homem pensou bem e encontrou a solução. Reuniu a família e recomendou: se a comadre chegar, diga a ela que viajei e não sabem quando eu volto. Montou no seu cavalo, galopou por quase um dia. No final, já cansado, resolveu descansar debaixo de uma árvore frondosa, perto de uma fonte. Quando se sentou, ali estava a Morte e lhe disse: “Meu compadre, sabia que você viria aqui, então vim esperá-lo”. Ao saber da sua morte, o povo perguntou: se um médico morre, então quem pode viver para sempre?

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