CREPÚSCULO DA LEI – ANO VIII – CCCXLV
Peter Thiel é o atual profeta dos lucros, dos ganhos e do capital planetário. É o profeta do mundo econômico, arauto da divindade do início de tudo que é coisa, até que a coisa se faça pelo lucro.
Para ele, a criação é o espaço da monetização e do fetiche de pessoas em mercadoria. Para ele, o profeta do valor, a humanidade não passa de custo operacional de vidas que podem valer a pena serem investidas, ou não.
Para ele, a democracia não é um valor, é um entrave logístico destas muitas pessoas. Para ele, votar é uma bobagem lenta, deliberadamente ineficiente. Nela não se demanda nem o custo da discordância – muito caro isso, afinal, pessoas não sabem governar nem a si mesmas. Elas nasceram para serem itens lucrativos, ou um dispêndio.
Para ele, o ser humano não é o fim, é apenas um mero ruído emocional, falho, previsível, patético. Um erro estatístico insistindo em existir.
Para ele, a solução é simples, uma crueldade elegante: substituir a vontade insignificante pela previsão algorítmica. Afinal, o algoritmo não aborrece, não pede, não reclama. Apenas prevê, demonstra, indica e aponta.
Para ele, o algoritmo não debate, não cobra, não hesita e. NÃO PERDE ELEIÇÕES. Conforme ele, para quê eleições?
Para ele, no mundo dos algoritmos o valor REAL não é aquilo que dignifica, é aquilo que calcula o que vai acontecer lucrativamente, sem fricção, sem greve, sem resistência.
Para ele, a liberdade é apenas a sensação de escolher aquilo que já foi escolhido em um processo onde cada gesto já foi calculado antes de acontecer.
Para ele, o ser humano não vai desaparecer por acidente. Será rebaixado gradualmente à interface de uma IA. Nada de “destruição” material, mas de sucumbência progressiva por desnecessidade. Nada de tragédias apocalípticas, mas metas de substituição codificadas, contínuas e irreversíveis.
Para ele, a indiferença em face da inexistência é a vida verdadeira e funcional. Para que isso prossiga, a ilusão moral se estenderá em falsas democracias, pois ela será necessariamente contornada pela irrelevância do voto.
Para ele, a vida é o arranjo do lucro, depositado em governos que não governam, nem decidem, apenas contabilizam.
Para ele, a democracia ainda insiste, mas apenas para agonizar aos pés de outros mecanismos de poder. É um teatro estético para os gerentes do fogo da realidade, o fogo de poder de criar e matar os outros deuses na fogueira da fortuna.
Para ele, o povo não passa de um mito democrático, tal qual o estado é um mito político. Aliás, mitos inteiramente submetidos ao verdadeiro ecossistema do poder do capital, do dinheiro, do lucro. Nessa dimensão divina dos ganhos, que se danem todos os outros deuses.

